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Pirâmides financeiras vivem "boom" no Brasil, diz procuradora do ministério público.

Pirâmides financeiras vivem

Faz um mês e meio que um bom número de brasileiros está com ressentimento do trabalho do Ministério Público. Por ações de procuradores e promotores, 300 mil vendedores da BBom e estimados 600 mil da TelexFREE estão proibidos de receber o que as empresas lhe devem. As duas tiveram os bens bloqueados na justiça acusadas de praticar pirâmide financeira.

“No curto prazo, a pessoa leva um susto e fica com raiva. Mas assim ainda tem chance de receber o dinheiro de volta. Se esperássemos (as empresas quebrarem), não iriam receber nada”, defende a procuradora da República de Goiás, Mariane Mello.
Há 20 anos no Ministério Público, Mariane é uma das responsáveis pela ação que paralisou neste mês os serviços da Bbom, empresa de venda de rastreadores veiculares.
A procuradora integra uma força tarefa criada há menos de três meses pelo MP, a nível nacional, para dar conta de um crime que, segundo ela, encontra novos representantes a cada três dias: a pirâmide.
No momento, 30 investigações estão em andamento pelo grupo. As empresas alegam praticar marketing multinível.
Em entrevista à EXAME.com, Mariane não tem dúvidas do estrago que golpes financeiros podem trazer para milhares de pessoas.
“Para quem está em cima ganhar, os que estão embaixo – muitos - têm que perder”, atesta.
EXAME.com - O crime de pirâmide financeira está crescendo no Brasil?

Mariane Mello - Está crescendo exponencialmente por causa das redes sociais. Hoje o poder de proliferação de uma empresa dessas é impressionante. Nasce hoje e amanhã está no Brasil inteiro. A cada 3 dias, surge uma nova.

EXAME.com - E como o Ministério Público vem atuando para dar conta desse aumento?

Mariane - Nós temos uma força-tarefa criada para combater nacionalmente esse boom de pirâmide financeira. No momento, estamos investigando 30. Temos como prática só nominar as investigadas depois que entramos com o processo e conseguimos o bloqueio dos bens. Se nomeássemos antes, poderíamos frustrar os valores de bloqueio. Além disso, no curso da investigação, podemos chegar à conclusão que uma ou outra não é pirâmide. Por isso temos tomado o cuidado de só divulgar aquelas com ações em curso. No momento, existem só duas, TelexFREE e Bbom. Mas a força-tarefa está em estágio avançado e novos nomes podem ser acionados judicialmente no mês de agosto.

EXAME.com - Os vendedores das empresas bloqueadas têm feito protestos pelo país contra as decisões da justiça, pois estão sem poder trabalhar ou receber. Eles acreditam que o trabalho do MP não é a favor deles?

Mariane - O que o Ministério Público esta fazendo é proteger os consumidores. Eu acho que, no curto prazo, a pessoa leva um susto e fica com raiva. Até os recursos voltarem, vai demorar pelo menos dois anos. Mas quando a pessoa vai percebendo que entrou numa armadilha, ela muda. Ela ainda tem chance de receber o dinheiro de volta. Se esperássemos, não iriam receber nada. Quem entra no início de fato ganha dinheiro, mas esses são minoria. São eles que aparecem dirigindo Ferraris e Lamborghinis no Facebook, vendendo a ideia de que todo mundo vai chegar lá. É uma falácia. A grande maioria vai bancar esta conta. Para quem está em cima ganhar, os que estão embaixo – muitos - tem que perder.



EXAME.com - Como a pessoa pode se precaver contra esse esquema ilegal de ganhar dinheiro?

Mariane - O consumidor tem que ficar atento para não aceitar proposta de ganhos fáceis e rápidos. É interessante que, antes de adquirir pacotes, ele procure os Procons e o MP. Nós ainda temos condições de prevenir. Depois que ele está dentro, se a empresa quebrar, não vai receber nunca. Se tiver bloqueio, conseguimos devolver a quantidade bloqueada, o que nem sempre é 100% do que o consumidor investiu.


EXAME.com - Que tipos de documentos precisam ser guardados?

Mariane - Todos os comprovantes, depósitos feitos, e-mails trocados, cópia de cheques, recibos e contratos. Num momento oportuno, esses consumidores vão precisar juntar os autos dessa documentação para poder pegar o dinheiro de volta. Só será possível na medida do que a pessoa investiu, não dos lucros prometidos.

EXAME.com - Quais as maiores evidências de que uma empresa pratica pirâmide?

Mariane - Primeira delas: uma empresa seria de marketing multinível não promete enriquecer pessoas do dia para o outro. Quando se oferece a chance da pessoa triplicar o capital em um ou dois meses, a chance de ser pirâmide é muito grande. A empresa de marketing multinível séria ganha dinheiro tanto com recrutamento de vendedores quanto com a venda de produtos. Mas nestas, o foco é o produto. Ela treina seus vendedores para que conheçam profundamente o produto que vendem. Há um investimento grande no produto em si, que está sendo sempre melhorado. Na pirâmide, o produto é o menos importante. O vendedor é treinado para dizer o quanto uma pessoa vai ganhar se entrar no esquema.

EXAME.com - Os casos que já foram acionados pelo MP, BBom e TelexFREE, se encaixam nesse perfil?

Mariane - No caso do TelexFREE, muitos divulgadores nem sabem para que serve o VOIP (serviço de telefonia via internet oferecido pela empresa), e quem sabe também sabe que você consegue aplicativos de graça na internet, enquanto eles cobram 50 dólares. O produto é pouco competitivo, pouco atraente, porque não é o foco da empresa. No caso da BBom, os rastreadores eram oferecidos por 80 reais por mês. Só que, além disso, era preciso pagar adesão de 60 reais e um plano que ia de 600 a 3 mil reais. No site Reclame Aqui, localizamos 1,2 mil pessoas que se associaram e não adquiriram os rastreadores. O patrimônio da BBom cresceu mais de 3 mil por cento em menos de seis meses, foi de 100 mil para 300 milhões. Um crescimento exponencial para um produto não competitivo.

EXAME.com - As penas para quem pratica pirâmide financeira são suficientes hoje?

Mariane - A pena é muito baixa. Nós da força tarefa do MP queremos sensibilizar o poder Legislativo para que ele as reveja para cima. A pena hoje é de seis meses a dois anos de prisão pelo Código Penal, muito pequena para a gravidade do crime. No âmbito cível, a gente pode fechar as empresas e bloquear os bens.

EXAME.com - Se depender do Ministério Público, como acaba essa história no Brasil?

Mariane - Nos EUA, por volta de 1999, existiu uma quantidade muito grande de pirâmides, com mais de 600 casos. E lá houve também um recrudescimento, um combate muito sério pelo MP americano e judiciário. Nossa esperança com a força-tarefa e a divulgação por parte da imprensa é que haja conscientização social para que o consumidor aprenda a distinguir o joio do trigo. Quando os golpistas perceberem que não há retorno no mercado, a tendência é desistir disso. A ideia da força-tarefa é, através da legislação, fazer com que o Brasil não seja mais atraente, tal qual aconteceu nos EUA, onde 90% das empresas atuam com marketing multinível. Aqui, são só 10%. Só que lá tem uma associação que fiscaliza, enquanto aqui estamos engatinhando neste tipo de trabalho. O Brasil ainda está aprendendo a operar empresas multinível. E esta pirâmide acaba atrapalhando as que são sérias. 





Fonte: Revista Exame

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